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Tuberculose

Em 24 de março de 1882, Robert Koch comunicou à Sociedade Médica de Berlin (Alemanha) a sua grande descoberta: finalmente, o bacilo causador da tuberculose havia sido identificado! Durante os séculos XIX e XX a tuberculose era, pois, um dos maiores problemas para a Saúde Pública, não só pela sua freqüência, mas principalmente por não ter, até a última década de 40, tratamento específico.

Já estamos em pleno século XXI, época em que a doença certamente deveria estar controlada, considerando-se que os recursos diagnósticos são relativamente simples e de grande eficácia, e que os esquemas terapêuticos são altamente eficazes. No entanto, hoje a tuberculose ainda representa um grande desafio para a estrutura sócio-econômica e a organização dos serviços de saúde. O número de casos novos mantém-se elevado e a mortalidade ainda é alarmante, particularmente nas regiões mais pobres. E mais: nos últimos anos surgiram os problemas da resistência do bacilo aos medicamentos e a maior incidência e gravidade da doença nos pacientes infectados pelo HIV. Se considerarmos, ainda, o descaso de governos e o conseqüente afrouxamento dos Programas de Controle, o quadro atual fica ainda mais preocupante...

Cultura Tuberculose
Frascos de cultura com crescimento de
micobactérias em laboratório

A verdade é que mesmo com as descobertas científicas até agora conseguidas, a tuberculose continua sendo a principal causa de morte por doença infecto-contagiosa em todo o mundo. Um terço da população mundial está infectada pelo bacilo tuberculoso!! Isto significa que existe um enorme reservatório de bacilos que, a cada ano, faz adoecer mais 8 milhões de pessoas e, dentre estas, quase 3 milhões morrem. Estima-se que a tuberculose cause 7% de todas as mortes (26% das mortes preveníveis) no mundo, a maioria ocorrendo em indivíduos jovens.

No Brasil, ocorrem cerca de 100.000 casos novos de tuberculose anualmente, o que significa 1 milhão de casos em uma década. Isto situa nosso país em 6° lugar, vindo logo após da India, Indonésia, China, Filipinas e Paquistão. Também a mortalidade continua elevada no nosso país - ao redor de 5.000 óbitos por ano.

Em geral não é difícil conseguir estabelecer o diagnóstico de tuberculose, mas em algumas situações pode ser necessário realizar procedimentos mais invasivos (punções com agulha, broncoscopias com biópsia) e até alguns tipos de operações de maior porte, ao encargo do Cirurgião Torácico. Uma vez diagnosticada, é fundamental tratar adequadamente - isto quer dizer: tomar vários comprimidos diariamente, SEM FALTA, por no mínimo seis mêses.

Bacilos da Tuberculose
Exame positivo para bacilos da tuberculose
(filetes vermelhos) no lavado broncoalveolar

Quem atende pacientes com tuberculose na rede pública conhece muito bem seu perfil psico-social - a situação familiar, as carências pessoais, as drogadições (particularmente o alcoolismo), a falta de assistência social, a miséria pecuniária, entre outros, tornam difícil estas pessoas dimensionarem adequadamente o fato de estarem com tuberculose. Daí, a baixa adesão ao tratamento - as pessoas simplesmente param de tomar os remédios!

Mas a tuberculose não acomete apenas os "pobres", os "sujos" e os "feios"... Um dos nossos últimos pacientes, professor universitário, submetido a uma ressecção pulmonar devido a um nódulo tuberculoso, percebeu que, segundo suas próprias palavras, "o balcão do Posto de Saúde para receber os remédios da tuberculose representa a mais pura democracia brasileira, acessível a abastados e miseráveis, negros e brancos, jovens e idosos, homens e mulheres!" - toda pessoa com tuberculose só consegue obter os medicamentos na rede pública de saúde, independente de suas posses, seu convênio, seu médico particular. Não são medicamentos colocados à venda nas farmácias - são distribuidos gratuitamente, mas só pelo Ministério da Saúde.

Quem é esclarecido deve cumprir sua obrigação pessoal diante do diagnóstico de tuberculose: TRATAR-SE ADEQUADAMENTE. Não apenas "para eu sarar", mas também para não continuar disseminando o bacilo, para não permitir o desenvolvimento de resistência aos medicamentos tomados irregularmente, para não se enganar enquanto pensa que "melhorou", se não "curou" - a tuberculose pode voltar mais tarde se não for totalmente tratada.

E é a importância do tratamento adequado que aumenta ainda mais a responsabilidade do órgão gerenciador desse tratamento, tornando indispensáveis até mesmo medidas que configurem um perfil paternalista, por exemplo a supervisão explícita - tratamento "vigiado", obviamente ajustado a cada situação clínica. E cabe ao médico, principalmente, o papel de ajudar o paciente, individualmente, a concluir o tratamento com êxito.

Por todas suas características, a tuberculose deverá acompanhar a espécie humana ainda por longo período, e devemos nos preparar, cada vez mais e melhor, para exercer seu controle. Atualmente, o Ministério da Saúde está desenvolvendo um programa de reestruturação dos recursos para prevenção, diagnóstico e assistência à tuberculose para toda a população brasileira. E a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia está envidando todos seus esforços para que esta iniciativa alcance o maior sucesso possível. Espera-se que todos os setores ligados à assistência médica interajam, estabeleçam projetos a longo prazo, e que o Programa de Controle da Tuberculose no Brasil se constitua numa realidade consistente, seqüencial e irreversivelmente competente para a erradicação da doença.

Modificado a partir de documento veiculado pela internet em comemoração ao Dia Internacional da Tuberculose, datado de 24 de março de 2002, assinado pelo Dr. Luiz Carlos Corrêa da Silva, Presidente da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, e por Dr. Miguel Aiub Hijjar, Presidente da Comissão de Tuberculose da SBPT.

Dr. Ricardo H. Bammann
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